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Ataques de Lula ao Banco Central disparam alerta mundo afora

No Brasil, a tensão é evidente em todos os níveis da economia – dos consumidores aos principais executivos.

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Há poucos líderes no mundo, se é que há algum, que enfrentam publicamente chefes de bancos centrais como o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. As razões são cada vez mais evidentes, à medida que os brasileiros sentem o aperto de uma economia enfraquecida.

Nove meses depois que o Copom fixou a taxa de juros no Brasil em 13,75%, encerrando uma dúzia de elevações rápidas da Selic, a dívida das famílias permanece recorde, os bancos estão cortando empréstimos e as falências de empresas estão aumentando.

Lula e Roberto Campos Neto
Roberto Campos Neto Fotógrafo: Andressa Anholete/Bloomberg

Grande parte dessa dor está sendo infligida pelo projeto do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Sem ela, ele e seus colegas imaginam, a demanda na economia não esfriará o suficiente para levar a inflação de volta à meta do país.

Para Lula, porém, isso é um absurdo. Ele destacou Campos Neto em suas tiradas, acusando-o de dificultar o crescimento do país ao tornar muito caro para os brasileiros tomar empréstimos.

Lula x Campos Neto


A disputa entre os dois homens está evidenciando um risco crescente na economia global. O Banco Central do Brasil pode ter aumentado as taxas de juros mais cedo e com mais intensidade que outros, mas quase todos os BCs – do Federal Reserve ao Banco da Inglaterra – subiram para níveis desconfortavelmente altos para os políticos.

Os apelos para o fim dos aumentos das taxas estão aumentando nas capitais de Nairóbi a Bogotá e Nova Délhi, ameaçando minar a autonomia que é tão crítica para a luta dos bancos centrais contra a inflação.

“A verdade é que a inflação vai demorar mais para cair no Brasil e vai demorar mais para cair praticamente em todos os lugares”, disse Silvia Matos, economista da Fundação Getulio Vargas.

“A rígida política monetária global criou um ambiente mais propenso a desentendimentos entre governos e bancos centrais. É uma relação que pode se tornar mais turbulenta.”

Silvia Matos, economista da Fundação Getulio Vargas.

Espremido em todos os níveis

No Brasil, a tensão é evidente em todos os níveis da economia – dos consumidores aos principais executivos. Isso facilita a Lula, – de 77 anos, cuja carreira política abrangeu presidências e prisões – colocar a culpa em Campos Neto.

Embora a inflação já tenha caído mais da metade em relação ao pico de 12% do ano passado – chegou a 4,2% em abril – economistas estão divididos sobre se ela continuará esfriando. Essa incerteza está levando o Banco Central do Brasil a manter sua taxa básica de juros no nível mais alto em mais de seis anos.

Inflação núcleo em alta

A inflação plena registrou forte desaceleração, mas os preços da inflação núcleo continuam subindo em ritmo acelerado, disse Campos Neto nesta semana, reconhecendo que Lula tem o direito de debater a política monetária.

Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fala em entrevista coletiva 27/03/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino

Os elevados custos de empréstimos estão entre as razões pelas quais a dívida das famílias no Brasil está em um pico histórico e as montadoras estão fechando as linhas de produção para evitar o excesso de oferta. As taxas médias de juros sobre empréstimos pessoais e habitacionais no país são de 42% e 11%, respectivamente.

Também ficou mais difícil tomar empréstimos em nível corporativo. Os aumentos de juros de Campos Neto tornaram os mercados de dívida locais mais caros antes mesmo de os mercados de títulos em dólar serem esfriados pelo ciclo de aperto monetário mais agressivo do Federal Reserve em uma geração.

Emissões em queda

As novas emissões fora do Brasil — tanto no mercado de capitais doméstico quanto no internacional — despencaram.

Houve apenas cerca de 90 negociações de títulos fora do Brasil este ano até meados de maio, a maioria em reais, totalizando cerca de US$ 11 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg. Isso representa uma queda de 51% em comparação com o mesmo período do ano anterior, mostram os dados.

“A sensação de que os custos dos empréstimos continuarão altos por um tempo gera muita incerteza”, disse Leonardo Ono, gerente de portfólio de crédito da Legacy Capital, um fundo de hedge com US$ 7,2 bilhões em ativos sob gestão.

“As empresas terão que lidar com taxas de juros mais apertadas por mais tempo do que o esperado e, em um momento como este, a situação do fluxo de caixa e do balanço se torna pior.”

Leonardo Ono, gerente de portfólio de crédito da Legacy Capital,

Os bancos também estão reduzindo os empréstimos, preocupados em assumir mais exposição ao risco depois que a varejista Americanas SA(AMER3) descobriu um rombo contábil que levou ao pedido de recuperação judicial.

Após o impacto dos empréstimos ruins no ano passado, o Banco Bradesco disse que é preciso ter cautela com taxas tão altas. O Santander Brasil ainda está cuidando das feridas de uma queda de quase 50% nos lucros do primeiro trimestre.

Isso faz com que os negócios busquem suporte de fontes inesperadas. O diretor financeiro da Minerva SA(BEEF3), Edison Ticle, disse no início deste mês que o exportador de carne bovina sacrificou dinheiro para ajudar a financiar alguns de seus fornecedores que estavam lutando para obter financiamento por conta própria.

“Precisávamos substituir os bancos no financiamento de nossa cadeia de suprimentos”, disse ele em entrevista.

Problemas corporativos

O número de pedidos de falência feitos por empresas brasileiras nos primeiros quatro meses do ano aumentou 34,1% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a Serasa Experian. Segundo Daniel Pegorini, diretor-presidente da Valora Gestão de Investimentos, as altas taxas “aceleraram o fim de empresas que já tinham problemas”.

“Não haverá solução rápida de curto prazo”, disse Alberto Serrentino, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, um grupo de lobby. “Precisamos da perspectiva de corte de juros e normalização do mercado de crédito privado para que as empresas possam respirar.”

Dilema de um fabricante de brinquedos

Nem mesmo durante a pandemia as coisas foram tão ruins, disse Marcelo Cardoso de Sá, sócio-gerente de uma pequena fabricante brasileira chamada Light Toys. Com as vendas no varejo disparando, uma das principais clientes da fabricante de brinquedos, a varejista de moda Marisa(AMAR3), pagou uma conta de R$ 2 milhões – quantia enorme para uma fabricante de bichos de pelúcia com 400 funcionários.

Desesperado para manter seu negócio funcionando, Cardoso buscou financiamento para cobrir o déficit. Mas as três ofertas bancárias que recebeu eram tão caras que ele teve que fazer um empréstimo pessoal para baixar a taxa a um nível que pudesse pagar.

“Nossas finanças sofreram”, disse ele, “mas continuaremos tentando”.

A Marisa vinha conversando há meses com seus próprios credores antes de finalmente parar de pagar a Light Toys. Um representante da Marisa disse que a empresa está conversando com fornecedores para encontrar uma solução. O fabricante de brinquedos ainda está esperando o pagamento.

Segurando

Quanto pior a economia para o bolso do brasileiro, mais encorajado fica Lula – ele começou a destacar Campos Neto em seus discursos – e crescem vozes para manter o banco central livre de interferência política, que causou tantos problemas econômicos no passado.

Mesmo assim, é provavelmente apenas questão de tempo até que a inflação diminua o suficiente para que o banco central afrouxe o controle sobre a economia. Os traders no Brasil agora precificam o potencial de cortes nas taxas de juros a partir do final deste ano.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista coletiva em Madri
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista coletiva em Madri 26/04/2023 REUTERS/Juan Medina

Por ora, no entanto, Campos Neto não recua.

Ele defendeu a autonomia do banco central, que só foi oficialmente transformada em lei em 2021, e defendeu com firmeza as metas de inflação do país. Embora todos desejem taxas mais baixas, ele argumentou, as consequências de aumentos vertiginosos de preços seriam muito piores – especialmente em um país com histórico de hiperinflação.

O Banco Central do Brasil ainda não mencionou futuros cortes de juros em suas atas de reunião mais recentes. Em vez disso, as autoridades disseram que estavam “preocupadas” com as expectativas de que os aumentos de preços ao consumidor se reacelerem.

Na opinião dele e de sua equipe, as medidas básicas que eliminam os itens mais voláteis – como alimentos e energia – e as expectativas dos analistas para a inflação precisam diminuir antes que possam reduzir os custos dos empréstimos.

Lula, na hora, criticou Campos Neto pela decisão. “Ele não tem compromisso com o Brasil”, disse o presidente. “Lojistas, empresários, trabalhadores brasileiros não aguentam mais essa taxa de juros.”

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